| Crônicas |
[Sep. 12th, 2006|07:07 pm] |
" Vambora...Vambora...Tá na hora...vambora...vambora" E assim se inicia a semana pra mim. Rádio relógio toca. Incessantemente, exatamente às 6:02. Demoro até as 6:10 pra realmente abrir o olho, mirá-lo com raiva e sentar na cama. Eterno ritual de todas manhãs de segunda. Sentar na cama. Procurar o cigarro. Isqueiro. Acender. Engolir o primeiro trago. Longo. Passar a mão no cabelo. Nos olhos. Levantar. Ir ao banheiro mijar. Jogar a bituca no vaso. Dar descarga. Entrar no box. Ligar o chuveiro. Algumas ensaboadas. Agua novamente. Enxugar. Pronto. Vestir o mesmo jeans. Meias 3/4. A camisa da empresa menos amassada. Ajeitar a barba. Arrumada no cabelo. Desodorante.Rua.
Essa noite incrivelmente não me lembro o que sonhei. Mas essa noite foi de sono pesado. Não me lembro se me despedi direito da garota, se ao menos disse tchau. Só me lembro de recebr o beijo e a luz se apagando. Ou foi eu? Bom, não sei na verdade, mas caminhando e pensando. Rindo, sempre. Começo a me lembrar de algumas coisas. Foi bom, muito bom por sinal. Talvez seja isso que mantém esse sorriso bobo no rosto. Talvez não. Pensar e rir dos pensamentos sempre acontece mesmo. Chego ao ponto de ônibus, quase o mesmo pessoal de sempre. Uma senhora com um lenço amarrado na cabeça, aparentando seus 60 anos, vestido de poliéster, rosto enrugado e sofrido.Um estudante, roupa de colégio, cabelo lisinho, com franja pro lado, earphones, imitando guitarra com o ar. Duas garotas, por volta de 20 anos, pasta na mão, jeans, salto alto. Bonitas até, mas maquiagem um pouco carregada. E um cara, aproximadamente a minha idade, mas nem reparo. Só reconheço que é novo por ali.
- Bom dia! Falo a todos do ponto.
A senhora e as garotas me acenam com a cabeça, o estudante cada vez mais entretido com seu solo e o cara é o único que responde em voz.
- Bom dia. Você sabe algum ônibus que segue até a Praça da Bandeira? Me pergunta com uma voz meio trêmula. - Bom, aqui vc pode pegar o 5570 ou esperar o próprio Bandeira. - Obrigado. Sou novo por aqui e não queria me atrasar ao trabalho. - Ok.
E fico por ali, aguardando o de sempre. Belém. Rumo a chibata. Quando vem. Espero a senhora subir com dificuldade. Ajudo com a sacola. Ela apenas me agradece com a mesma delicadeza de sempre de pegar na minha mão. Coisa de vó, eu acho. Vou até a roleta e como de costume, cumprimento o cobrador.
- Bom dia, como cê tá? - E aí, certo? Atrasado, mas agora só passar reto uns 3 pontos que chegamos no horário. - Tá certo.
Dou uma risadinha pra não ficar sem graça. Fico pensando se fosse comigo, eu não estaria achando graça, afinal, seriam 40 minutos de espera pelo próximo. Desconto pelo atraso. comida de rabo da chefe. E não quero começar meu dia pensando nisso. Fico ali de pé, perto de um bigodudo que há muito já havia vencido o cheiro do suvaco, aceno a cabeça, mas ele nem aí, segura firme no ferro, braço estendido e cara de poucos amigos. Mas com aquele cheiro quem será amigo dele?. E rio. Ele não entende, pode me achar aviadado. Mas tá foda. 28 minutos. É o tempo que me separa desse cheiro maldito à liberdade do dióxido de carbono lá fora. E aguento. Firme. Pensando. Fechando os olhos de vez em quando. De repente, ouço.
- O senhor tá me achando com cara de Papai noel, pra carregar seu saco no ombro? Uma moreninha, nordestina, do tipo bem furiosa reclamando do bigode com carniça no suvaco. - Não minha senhora, o ônibus está muito cheio, e esse vai e vem... Diz ele constrangido. - Olha, se encostar de novo esse saco em mim, juro que furo com o pente.
Ele nem responde e sai. Eu o acompanho, escutando ainda alguns comentários sobre pente e tal. Descerei no próximo ponto. Dou sinal. Alguns metros. Porta se abre. Enfim, redenção. Acendo outro cigarro. Outra tragada longa. Ando devagar, ainda faltam 15 minutos. Tragada, passos, tragada, passos. Chego. Bom dia ao porteiro. Chamo elevador. Entro. 7º Andar. 2 minutos. Desço. Bom dia aos de sempre. Dois que conheço desde que comecei a trabalhar, uma menina que sempre me traz café quando não está ocupada, a chefe e só. O resto, eu não faço questão. REsposta de pronto de todos.
- Bom dia.
E mais nada. Sigo pra minha baia. Ligo o computador. Fone na orelha. Microfone um pouco abaixo da boca. Meu humor muda. Irritado, ranzinza, chato, agressivo...Ao menos nas próximas 8 horas. Primeira ligação do dia.
- Companhia de telefonia paulista, bom dia, no que posso ajudar? Com voz grave e seca. Fugiu a simpatia e os pensamentos não me traz mais sorrisos. - É que meu telefone não estava funcionando, agora voltou, mas antes não estava. Como isso pode acontecer, hein moço? Uma mulher, com voz doce, mas eu não estou com saco. - Não sei senhora, pelo que consta no meu sistema, estava e está funcionando muito bem. - Agora, mas há 3 horas, não estava nem dando linha. - Bom, vou dar uma olhada no sistema, a senhora aguarda uns minutinhos? - Sim. Levanto. Vou pegar um café. Passo pelo banheiro, dou a segunda mijada do dia. Lavo as mãos. Volto.
- Senhora? - Sim. - Nosso sistema não acusa nenhum problema. - Como não? Não estava funcionando. Você está me chamando de mentirosa? Meu saco já estourando, esperando a próxima pra mandar tudo pro alto. - Não senhora, mentirosa não, só estou relatando o que nosso sistema indica. - Vocês são todos uns incompetentes!!! Aí foi a gota d´água. - Senhora, tem marido? - Sim. - Aproveita que é casada, vai trepar, dar o rabo pra ele, chupar, enfim, vá foder com ele, não comigo. E fiz silêncio, mas com uma vontade de gargalhar, mas não podia. - Seu mal educado. Filho da puta. Me chama seu chefe. Eu quero falar com a chefia. Onde já se viu? Devo ter idade pra ser sua mãe, seu filho da puta!!! - Então senhora, faça como ela, fode com o marido, não encha e passar bem.
Desligo rindo. Jogo a cabeça pra trás. Alongo os braços, como se estivesse espreguiçando. Ouço um burburinho de que ela ligou novamente, mas está com outra pessoa tentando explicar porque ninguém dali falaria aquilo para ela. E fico na minha. Afinal, ninguém sabe quem foi, se souber, foda-se. Hoje não era nem pra estar aqui. Ramal toca novamente.
- Companhia de telefonia paulista, bom dia, no que posso ajudar?
- Bom dia. Estou com um problema. Minha conta veio muito alta, com interurbanos para cidades que eu nem sabia que existia. A voz de um homem. Rouca. Séria. Sotaque espanhol. Ou de qualquer lingua que valha.
- Senhor, por esse número que ligou, consta sim, muitas ligações interurbanas. O senhor admite não ter feito? - Sim, não conheço essas cidades, nem meus filhos. - Já conversou com sua família sobre? - Sim e tenho que acreditar neles e não nessa conta absurda! - Não tenho muito o que fazer. O senhor pode pagar essa conta e na outra enviaremos como bônus. Eu sei, é muito pra inteligência de um ser humano, mas é procedimento e regulamento da empresa. Se fosse comigo...
- O quê? Bônus? Como assim? - Simples, o senhor vai ao banco, paga a conta e mês que vem reavemos isso como bônus em sua conta. - Você está maluco?? Eu pagar por algo que não usei e depois ainda ter de reaver isso como prêmio?? Vai tomar no cú!!! - Senhor, é procedimento da empresa... - Foda - se, mas isso eu não pago!!! E começou a sessão de xingamentos de todos os tipos, até a hora de começar a ser pessoal... - Você é um filho da puta, eu trabalho muito pra sustentar 4, você não sabe o que é acordar cedo e dar duro... - Senhor, minha mãe não é puta, mas dar no duro e sustentar de 4? Repete a frase...
E dou uma enorme risada. Daquelas que até a chefe desconfia. E vem falar comigo. Transfiro a ligação, falando que ele falaria com a superintendência. E vou pra sala da chefe. Profissional em cima da mesa, o velho papo de corte de pessoal, produtividade, atitudes erradas, blá blá blá...Pego a carteira, aperto de mão de esmagar os dedos, olhar fixo na cara da piranha. Tudo bem, não queria mais estar ali, porém, nunca é bom perder emprego, por pior que aparenta ser. Mando um tchau de longe para os de sempre. Sigo o corredor. Elevador no 7º. Entro. 2 minutos. Térreo. Livre. Cadê o bar? Penso e logo mais risos. Ando. Devagar, agora não tem mais pressa. Entro no primeiro bar que encontro. Olho no relógio, já passa das 14. Peço a mesma gelada de sempre. E veio, exatamente como pensei, gelada, amarela e espumante. Encho o copo. Primeiro gole sempre até acabar. Segundo aos poucos. Sem pressa. Um legião de desempregados estão pelo balcão, alguns jogando sinuca, outros falando do jogo de ontem, Nada demais, apenas mais um bar. E eu ali, sentado, observando, bebendo...Termino minha cerveja, deixo dinheiro em cima do balcão, rumo ao ponto de ônibus. Sem pressa. Vendo o que acontece na rua nos dias em que estou enclausurado. Muitos passantes. Muitas bundas interessantes. Sainhas. Barriguinhas. Começo a pensar que o dia é mais atraente que a noite. Mais alguns passos e paro no ponto de sempre. Vazio. Só o vento e eu. passa um, dois, três ônibus...Decido não pegar apenas o próximo. Ainda é cedo. Enfim veio o busão. Subo.
- Boa tarde cobrador. Sem resposta.
Sento. Olho pela janela, assistindo casas e prédios passando. Muita sujeira. Pixação. Me perco nos pensamentos. Só um aliás, me atrai. Apenas um.
- Devo ligar pra menina. E sigo pensando dentro do coletivo. Mais alguns quilometros rodados e chego. Desço. Alguns metros andando. Em casa. Procuro o papel, acho em cima da cama, todo amarrotado. Pego o tel. Tento uma, duas, três...Sempre ocupado.
Deito na cama, olho o relógio de parede, 20 hs. Levanto, passo uma agua num copo, sirvo de cachaça. Ligo o som e a tv. Escolho um cd, fiona apple, chatinho, mas tem uma musica boa. Get gone. Coloco no repeat. Goles na pinga. Olhada na tv. Som um pouco alto. Tento acompanhar o refrão cantando na altura do som. Dou risada do meu inglês. Sento. Som, cachaça e pensamento longe... Cause what i do was not good for you...And you did not good for me... É o q eu lembro da letra, ou algo parecido.
Depois de algumas vezes tocando e meio bêbado, sei que virei para a esquerda. Sonolento. Dormi.
Continua... |
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