| Crônicas |
[Sep. 11th, 2006|12:55 am] |
E o dia começou. Acordo, gosto estranho na boca, como se estivesse beijado ou lambido alguns ratos. Asqueroso. Levanto, meio cambaleante, sonolento, devagar...Sinto o pé dormente ainda, dou umas batidas no chão pra acordá-lo, mas ainda assim o sinto formigando, inerte aos movimentos que insisto que faça. E nada. Tento uns passos e quase caio.
- " Filha da puta..." Esbravejo, mas logo sinto ficar um pouco mais quente e esperto, agora sim, de volta à vida.
Visto minha camisa vermelha, o jeans de sempre, meias 3/4, o velho tênis. Dou uma mexida na barba, uma arrumada no cabelo. Abro a carteira, coisa pouca. Passes de ônibus, duas ou três notas pra bebida, identidade e só. Aliás, nem preciso de muito mesmo, tá bom demais.
- " Porra, acabou a bateria do relógio. Talvez me atrase. Ou não." Penso em voz alta.
Mas me lembro que não vou a algum compromisso braçal. Apenas sair, ver o mundo, desopilar o fígado. E rir. Rir muito. De mim, do mundo, da merda de cachorro deixada na porta de casa.
- " Filho da puta !!!" De novo, esbravejo, mas de nada adianta. Como os idiotas acreditam, é sorte pisar em merda. Não quando está a dois passos da porta de sua casa.
Vagando, paro no ponto de ônibus. O primeiro que passar serve, como sempre, sem rumo ou destino. Apenas ir. Caetaneando a vida. Coisa de viado, eu sei, mas não tenho lenço, nunca, mas documento sim. Nunca se sabe o grau alcoólico da vítima. Penso, dou uma risadinha, costume solitário e imbecil. Todos devem me achar louco. Gosto disso, da diversão que a imaginação nos dá. E rir. Rir das próprias besteiras que penso sozinho, falo sozinho, imagino sozinho... Boa noite ao cobrador, desço do ônibus. Agora sim, a rua só minha, e de alguns que vão e voltam sem destino como eu. Sozinhos. Devem rir dos pensamentos, imaginações, falas...
Entro no primeiro bar sujo que vejo, peço a mesma de sempre.
" Tá gelada hj? Vê direito esse negócio, hein, cú de burro?, Já sabe vem quente, volta fervendo..." O rapaz ri e me traz aquela do fundo da geladeira, gelada...Sobe no copo amarela com espuma... A primeira bebo com gosto. Viro o copo e só tiro da boca qdo acaba. Encho novamente, mas esse eu deixo, dando alguns goles esporádicos.
Nesse meio tempo, fito uma garota. E outra. E mais outra. Até encontrar aquilo que estou esperando. E não encontro. Devo estar atrasado, dou umas batidinhas no relógio e nada. Essa porra não funciona mesmo. Outro gole grande e volto a encher o copo. Ao colocar a garrafa no balcão, sinto alguém cutucar as minhas costas e com uma doce voz falar: - "Taí faz tempo? Porra, andar tudo isso e chegar aqui e nem ter um copo. Serve um trago aí, que vou ao banheiro e já venho." Saiu tão rápida quanto a sua chegada. Pedi outro copo. Enchi e devolvi ao balcão. À espera. E sua volta é triunfante. Sorriso bem posto no rosto, jogando os cabelos, chega bem perto e me beija. Falamos sobre algumas coisas bobas, deixo o dinheiro no balcão e saímos.
Andamos vagarosamente, sem pressa, conversando sobre os assuntos mais idiotas do mundo. Às vezes até sobre desenhos animados, alguns escritores que gostamos, outros que detesto, mas a escuto, afinal não gosto de papo pseudo, citações, decoreba de alguns livros, apenas pra dar o ar de inteligência ou conhecimento enlatado...Falo pouco, apenas escuto...Não por timidez, nada disso, apenas não tenho paciência para conversas medíocres ou que tentem passar algum tipo de conhecimento inteligente demais. Por isso só escuto. Exercício de sedução masculina? - Penso - Talvez. Avisto alguns conhecidos nossos em um bar e decidimos sentar. Não sei, mas mulher tem o poder de atrair qualquer idiota, realmente. E sobre o assunto que não me interessei, sempre tem um esperto com as maiores idéias e soluções para tudo. Agora não sou mais o principal, apenas o coadjuvante. Engraçado, mas é da essência feminina. Qualquer novidade, mesmo a mais imbecil, as atraem. Tudo bem, não tenho muitas qualidades para ser príncipe.
A maneira como fingia não me conhecer, mexia e remexia meus instintos, o macho...A cada corte, cada olhada mal dada que dávamos, desaprovando um pouco as atitudes, os trejeitos, as risadas, as jogadas de cabelo. Aquilo me deixava fervendo. A desejava cada hora mais. Acho que a solidão faz isso com as pessoas, mendigam por o mínimo de atenção, se alguém a rouba, ficamos fulos e ciumentos. Merda.
Por mais algumas horas ficou aquele jogo de sedução à francesa, surdina, sorrateira...Decidimos ir, levantamos, alguns apertos de mãos, abraços, um pouco afoitos ao meu ver, beijinhos e meu saco estourando. Solto um sorriso. Essas situações nos pedem um sorriso. Mesmo cínico. Abixo a cabeça quando ouço.
- Vamos?
Abano a cabeça positivamente e saímos. Alguns passos e pergunto.
- O que temos um do outro?
Ela estranha.
- Nada. Apenas nos vimos duas vezes. Com um riso característico de quem sabe que está desafiando o macho.
Seguimos o caminho, sem trocar uma palavra. Caminhando. Devagar. Caminhamos. Sem sentido e sem palavras. Muito menos palavras. Mas sei o que ela espera. Domínio. Toma-la nos meus braços agora seria muito pueril. Não posso me render a isso. Não teria motivos para tal. Agir por tesão, desafio, ira, descontrole...Não, começo a pensar sobre a merda do cachorro. E rio.
- Do que está rindo? - Pergunta. - Situações ridículas do dia a dia. Pisei na merda do cachorro ao sair de casa, lembrei e ri. Ela olha descrente. - Tsc, tsc, tsc. Homens.
Se despede, beijo no rosto, abraço, boa noite e some.
Chego no ponto de ônibus. Começo refletir sobre muitas coisas...Sem sentido, sem discernimento. Deve ser a bebida. Mas penso em algo que me chama atenção...
- Buceta é sempre bom, pena que a mulher vem junto...E mais algumas risadas solitárias.
Pego o primeiro que passa. Subo no ônibus.
- Boa noite cobrador.
Alguns quilometros rodados. Desço. Ando até em casa. Chego, tiro os sapatos. Deito. E o telefone toca.
- Alô? - É, vc realmente não vale a pena, não me comeu hoje, não come mais. Dou risada sozinho da frase e apenas respondo.
- Buceta é bom, pena que mulher vem junto. Ouço alguns xingamentos, o telefone desligado agressivamente...Dou mais algumas risadas, afinal, não é todo dia q perco alguém por ser idiota.
E novamente, deito. Sonolento. Viro pra esquerda. Durmo.
Continua... |
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