| Crônicas |
[Sep. 13th, 2006|07:30 pm] |
E a música continuou tocando, me atrapalhando o sono, porém, não quis levantar. Só quando percebi que passavam das 22 e não queria ninguém batendo na porta de casa pedindo pra maneirar com o barulho. Levantei.Desliguei o som. Fui pro quarto. Deitei. Dormi novamente. Profundamente. 14:53. Era o que dizia o radio relógio. - "Deve ter tocado horrores essa manhã e nem escutei." Comentei sozinho.
Levanto e o mesmo ritual de sempre. Cigarro. Isqueiro. Tragada longa. Banheiro. Mijada demorada. Ligar o chuveiro. Enxaguar. Ensaboar. Enxaguar novamente. Secar. Desodorante. Vestir-se. Camisa polo amarela, bermuda jeans larga e chinelos. Uma passada de mão na barba. Uma arrumada no cabelo. Vou até a cozinha, coloco a água pra ferver, duas colheres de pó de café no coador de pano. Acendo mais um cigarro pra esperar. Água pronta. Jogo de uma vez no pó. Sai aquela agua preta e fervente. Misturo com açucar. Dou um gole pequeno. Está bom. Coloco mais no copo e vou pra sala. Ligo o som. Hoje estou afim de escutar barulho...Não estava mais afim de ouvir nada melancólico. Preferi escutar London Calling...
- " Esse disco é foda..." Digo.
E ouvindo e pensando e rindo e pensando e ouvindo. Procuro novamente o telefone da garota e insisto. 1, 2, 3...ocupado.
- "Mulher é foda!!" Penso em voz alta e rio.
Dou um tempo, meia hora talvez. Não olhei para o relógio dessa vez. Ligo novamente. 1, 2...
- Alô? Voz de mulher, um pouco cansada, anasalada, tom de gripe. - Alô, gostaria de falar com Carla... - Quem deseja? - Um amigo dela... - Só um minuto. Carlaaaaaaaaaa... Um grito estridente que fez juz aos anos que não escutava Led Zeppelin. E mais risadas, agora sem som. Mais alguns segundos.
- Alô? - Carlinha, tudo bom? - Sim, tudo. Quem é? - Quer mais 3 bons motivos? - Hummmmm...Pensei que apenas aqueles já valiam. - Não docinho, tenho muito mais motivos pra te rever. - Ok. Quando, onde e como? - Hoje, talvez. Está livre? - Hummmm...entre facul, bar, amigos e hoje ser terça feira? - Muito ocupada pelo visto. Sem problemas. Marcamos para o fim de semana. - Não, não...espera... E fica um silêncio alguns segundos. Retorna.
- Você não trabalha hoje? - Não, despedido ontem. Corte da empresa e tal. - Que chato! Bom, se está livre o dia todo, me mando agora praí. - Sem crise. Estou esperando... - Meia hora, estou batendo na sua porta. - Ok. - Ok. - Beijo. Té mais. - Beijo.
E lá vou eu, dar uma arrumada rápida na casa, jogar fora as camisinhas do lixo do quarto, varrer a sala, colocar a roupa suja no cesto, uma lavada rápida nos copos, colocar o lixo pra fora. Pensar e rir. - "Quem diria? Colocar o lixo pra fora por causa de mulher." E dou uma risada. Saio rápido, vou até a padaria da esquina, compro alguns pães, um pouco de queijo..." Pode ser prato mesmo" - Digo ao balconista - Refrigerantes, um vinho barato, chocolates...Dou uma corrida na mercearia, um pacote de espaguete, molho, um punhado de manjericão fresco, peso um pouco de parmesão e volto correndo pra casa. tudo arrumadinho dentro do armário, cesto de pães cheio, refri e queijos na geladeirana geladeira, sento na sala e espero...
"London is drowning and i, live by the river..." Pela enésima vez. Dou uma olhada. Tudo arrumadinho. Parecendo casa do João Armentano. Concordo. Muito gay pro meu gosto. E rio. Tenho jeito pra decorador, daqui a pouco faço feng shui. E mais risadas.
Mais 10 minutos se passam e nada...Mais 10 e nada... - "Caralho!! Como atrasa essa porra!!!" Disse alto, voltando do banheiro pela 6ª ou 7ª mijada do dia. " Spanish bombs in santa lucia..." Já de saco cheio dessa merda tocando e puto de ter de esperar, desligo o som, no meio da música. Já não estava mais tão paciente com os dizeres de ordens de Strummer/Jones. Pro caralho essa merda. E toca a campainha. Dou um salto pela mesinha de centro, estico o braço e caio com a mão na maçaneta já. Parecia o Jordan. Risos solitários.
- Demorei? - Ahhh, quase nada imagina...Meia hora é tão relativo, mas 1:30 passa de relativo a provocação. - Relaxa, não estou aqui? Risos sacanas dos dois. - Está? Sem beijo, não há presença que cure atraso. E me beijou. Quente e molhado, como sempre, lingua pra lá, lingua pra cá...Paramos, mãos dadas, passos até o sofá...ela na frente, claro, reparar em tudo na beldade. All stars, Jeans escuro, blusa preta, cabelos negros e longos. Sentamos. Ela de frente pra mim. Como no domingo. Só que agora estou no sofá. Nada de banco que dói a bunda.
- E aí, que decidiu fazer da vida hoje? Disse. - Bom, apesar de perder o emprego decidi dar um tempinho. Viver um pouco de mamata. Tenho um dinheiro de fgts pra receber, seguro desemprego, e uns trocos guardados. E vc? - Ahh, facul tá um saco. Mas é prazeroso. Andando pra cima e pra baixo atrás de trabalho. Só me aparece telemarketing e não estou afim... - É, acabei de sair de um assim, é foda mesmo... - Então, sabe do que estou falando... E trocamos uns olhares. Hoje, mais sóbrio que o vinho mata rato de domingo, deu pra observar melhor. Olhos grandes, negros e profundos, lápis no contorno, Cabelo bem preto, preso por uma presilha de borboleta, digno herança de vó, sem batom...Brincos em forma de meia lua, de prata, bijoux peruana, eu acho. Impressão de ser um pouco sozinha, tinha um ar depressivo, porém, jovial. Se encantava com algumas frases, ria muito, alto, estridente, sorriso bonito. Passada a fase de risos, voltava o ar down. Era estranho, porém, provocador. Instigante. Diferente de outras, claro, mas com um ar parecido com as mulheres que me atrai. As frágeis. Ou que aparentam ser frágeis. Ou com alguma fragilidade. Ou que não seja frágil, mas deixa ser frágil. Ou não frágil e que não tenha fragilidade, mas necessita de uma única coisa. Proteção.
- E aí, trouxe uns discos pra gente ouvir. Posso? Peço pra olhar. Chico buarque, argh...Caetano, argh...Massive attack, é esse. - Esse mezzanine é ótimo. Diz. - É eu também tenho, acho maravilhoso. Colocaí. Mas esses outros, nem fudeno... E rimos. Pergunto se está afim de comer algo. - Tem o que pra comer? - Faço um espaguete, tem pão, queijo, refri, vinho, chocolate... - Bom, faz o espaguete que eu acompanho. - Ok...
Bom, panela no fogo, agua, uma pitada de sal e só. Espero ferver. Jogo a massa na panela. Espero ficar ao dente. Ela na sala. Dançando de braços abertos, ao som de "Angel". E parecia mesmo. Movimentos leves. Parecendo uma odalisca. Meio maluca, mas muito sensual. Braços jogados ao vento. Sempre. Linda... Coloco a massa no escorredor, jogo um pouco de agua fria. Jogo uns tomates na panela, uma pitada minúscula de sal e deixo ferver. Tiro as peles. Um pouco d´agua. Manjericão. Mais fervura. Pronto.
- Aê, tá pronto. Ela pára seu solo. Vem até mim. Aprecia o aroma. Pega a colher, coloca um pouco do molho na palma da mão. Experimenta. Arregala o olho com expressão de estar muito bom. Pega um prato. Joga um pouco de massa, molho, parmesão e se senta na mesa da cozinha. Faço o mesmo. De frente a ela. Comia com gosto. Parecia nunca ter comido um espaguete na vida. Não sei, cada garfada era seguida de um elogio.
- Nossa, pra mim isso é quase novidade. Em casa não como molho de tomate assim. O que você fez? - Só não usei nada de caixinha. E ela riu. - Pois é, coisas práticas da vida. Mas nada como uma boa comida.
E mais garfadas, mais elogios. De vez em quando falava alguma coisa sobre a música. Mas voltava sempre no mesmo ritual. Garfadas e elogios. Elogios e garfadas. Até finalizar o prato e colocar a mão sobre o estômago.
- Nossa, valeu! Falou, soltando um suspiro no fim. - Gostou? - Muito. Está de parabéns, pronto pra casar. Pisca. - Não, isso não serve pra mim. Respondo de pronto. - Não, nem pra mim, mas com um marido desses, eu me casaria. Cozinha muito bem, sempre tem motivos pra me consquistar e não reclama das minhas maluquices. - Reclamar? Suas maluquices são parecidas com as minhas talvez, menos ouvir mpb... Ela ri. - É, nem tudo é perfeito. - Nem tudo, perfeição demais cansa. - Pode crer.
E ficamos ali, conversando sobre perspectivas, estudos, trabalhos, culturas, sons, barulhos, dia a dia, enfim, a vida em si...Mas sempre com seu ar depressivo, melâncólico, me dá colo, porém, arisca e esperta...Se deu conta que passara das 18:45, pegou os cds do Caetano e Chico, colocou na bolsa. Amparou no ombro.
- Está na hora de ir. Tenho facul ainda hoje... - Tudo bem, te acompanho até o ponto... - Tá certo...Vamos então? - Vamo...
Seguimos pela rua, mãos dadas, sem trocar muitas palavras. Timidez? Talvez. Costume? Talvez. Namoro? Muito cedo. Chegamos. Paramos ali. Reparo que não havia ninguém conhecido. Nem mesmo a senhora de todos os dias. Mesmo 12 horas depois. Esperamos um pouco. Veio o maldito. Trocamos um beijo. Me pediu pra ligar mais tarde. - Por volta das 23:30, ok? Acenei com a cabeça. Dei um tchauzinho acanhado e voltei. Alguns passos. Muitos pensamentos. Muitos sorrisos bobos. Entrei.
"You are my angel"...Tocava de novo. Sentei ali. Me servi do vinho que restara. Bebendo. Pensando. Sorrindo. Não conseguindo esquecer aquele par de olhos gigantes. Negros. Profundos. Pintados. Doces. Frágeis. E por ali fico. Ligo a tv. Vejo, mas ainda prefiro o som da música. E viajo. Lembrando da dança e dos olhos. Levanto. Mais uma mijada demorada. Volto. Sento. Cochilo. Acordo assustado. Dou uma olhada no relógio. 23:40. Pego o telefone. Ligo.
- Alô? - Alô, Por favor a Carla? - É ela. - Oi, chegou bem? - Sim, e você, ficou bem? - Sim, claro. - Olha, você esqueceu seu cd aqui. - De propósito, pra você lembrar de mim, um dia eu pego... - Pode ser amanhã? - A mesma meia hora de hoje? - Se preferir... - Então combinado, só não vai estranhar, pois, sempre atraso... - Tudo bem, vale a visita e a compania... - Combinado... - Ok, beijo. - Beijo.
Desligo. Vou a sala. Desligo o som. Aumento a tv. Olho um pouco. Lembro dos olhos. Da dança. De virar pra esquerda. Sonolento. E dormir. |
|
|