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justdemon

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Crônicas [Sep. 13th, 2006|07:30 pm]
E a música continuou tocando, me atrapalhando o sono, porém, não quis levantar. Só quando percebi que passavam das 22 e não queria ninguém batendo na porta de casa pedindo pra maneirar com o barulho.
Levantei.Desliguei o som. Fui pro quarto. Deitei. Dormi novamente. Profundamente.
14:53. Era o que dizia o radio relógio.
- "Deve ter tocado horrores essa manhã e nem escutei."
Comentei sozinho.

Levanto e o mesmo ritual de sempre. Cigarro. Isqueiro. Tragada longa. Banheiro. Mijada demorada. Ligar o chuveiro. Enxaguar. Ensaboar. Enxaguar novamente. Secar. Desodorante. Vestir-se. Camisa polo amarela, bermuda jeans larga e chinelos. Uma passada de mão na barba. Uma arrumada no cabelo.
Vou até a cozinha, coloco a água pra ferver, duas colheres de pó de café no coador de pano. Acendo mais um cigarro pra esperar. Água pronta. Jogo de uma vez no pó. Sai aquela agua preta e fervente. Misturo com açucar. Dou um gole pequeno. Está bom.
Coloco mais no copo e vou pra sala. Ligo o som. Hoje estou afim de escutar barulho...Não estava mais afim de ouvir nada melancólico. Preferi escutar London Calling...

- " Esse disco é foda..."
Digo.

E ouvindo e pensando e rindo e pensando e ouvindo. Procuro novamente o telefone da garota e insisto. 1, 2, 3...ocupado.

- "Mulher é foda!!"
Penso em voz alta e rio.

Dou um tempo, meia hora talvez. Não olhei para o relógio dessa vez. Ligo novamente. 1, 2...

- Alô?
Voz de mulher, um pouco cansada, anasalada, tom de gripe.
- Alô, gostaria de falar com Carla...
- Quem deseja?
- Um amigo dela...
- Só um minuto. Carlaaaaaaaaaa...
Um grito estridente que fez juz aos anos que não escutava Led Zeppelin. E mais risadas, agora sem som.
Mais alguns segundos.

- Alô?
- Carlinha, tudo bom?
- Sim, tudo. Quem é?
- Quer mais 3 bons motivos?
- Hummmmm...Pensei que apenas aqueles já valiam.
- Não docinho, tenho muito mais motivos pra te rever.
- Ok. Quando, onde e como?
- Hoje, talvez. Está livre?
- Hummmm...entre facul, bar, amigos e hoje ser terça feira?
- Muito ocupada pelo visto. Sem problemas. Marcamos para o fim de semana.
- Não, não...espera...
E fica um silêncio alguns segundos. Retorna.

- Você não trabalha hoje?
- Não, despedido ontem. Corte da empresa e tal.
- Que chato! Bom, se está livre o dia todo, me mando agora praí.
- Sem crise. Estou esperando...
- Meia hora, estou batendo na sua porta.
- Ok.
- Ok.
- Beijo. Té mais.
- Beijo.

E lá vou eu, dar uma arrumada rápida na casa, jogar fora as camisinhas do lixo do quarto, varrer a sala, colocar a roupa suja no cesto, uma lavada rápida nos copos, colocar o lixo pra fora. Pensar e rir.
- "Quem diria? Colocar o lixo pra fora por causa de mulher." E dou uma risada.
Saio rápido, vou até a padaria da esquina, compro alguns pães, um pouco de queijo..." Pode ser prato mesmo" - Digo ao balconista - Refrigerantes, um vinho barato, chocolates...Dou uma corrida na mercearia,
um pacote de espaguete, molho, um punhado de manjericão fresco, peso um pouco de parmesão e volto correndo pra casa. tudo arrumadinho dentro do armário, cesto de pães cheio, refri e queijos na geladeirana geladeira,
sento na sala e espero...

"London is drowning and i, live by the river..." Pela enésima vez. Dou uma olhada. Tudo arrumadinho. Parecendo casa do João Armentano. Concordo. Muito gay pro meu gosto. E rio. Tenho jeito pra decorador, daqui a pouco faço feng shui. E mais risadas.

Mais 10 minutos se passam e nada...Mais 10 e nada...
- "Caralho!! Como atrasa essa porra!!!"
Disse alto, voltando do banheiro pela 6ª ou 7ª mijada do dia.
" Spanish bombs in santa lucia..."
Já de saco cheio dessa merda tocando e puto de ter de esperar, desligo o som, no meio da música. Já não estava mais tão paciente com os dizeres de ordens de Strummer/Jones. Pro caralho essa merda. E toca a campainha.
Dou um salto pela mesinha de centro, estico o braço e caio com a mão na maçaneta já. Parecia o Jordan. Risos solitários.

- Demorei?
- Ahhh, quase nada imagina...Meia hora é tão relativo, mas 1:30 passa de relativo a provocação.
- Relaxa, não estou aqui?
Risos sacanas dos dois.
- Está? Sem beijo, não há presença que cure atraso.

E me beijou. Quente e molhado, como sempre, lingua pra lá, lingua pra cá...Paramos, mãos dadas, passos até o sofá...ela na frente, claro, reparar em tudo na beldade. All stars, Jeans escuro, blusa preta, cabelos negros e longos.
Sentamos. Ela de frente pra mim. Como no domingo. Só que agora estou no sofá. Nada de banco que dói a bunda.

- E aí, que decidiu fazer da vida hoje?
Disse.
- Bom, apesar de perder o emprego decidi dar um tempinho. Viver um pouco de mamata. Tenho um dinheiro de fgts pra receber, seguro desemprego, e uns trocos guardados. E vc?
- Ahh, facul tá um saco. Mas é prazeroso. Andando pra cima e pra baixo atrás de trabalho. Só me aparece telemarketing e não estou afim...
- É, acabei de sair de um assim, é foda mesmo...
- Então, sabe do que estou falando...
E trocamos uns olhares. Hoje, mais sóbrio que o vinho mata rato de domingo, deu pra observar melhor. Olhos grandes, negros e profundos, lápis no contorno, Cabelo bem preto, preso por uma presilha de borboleta, digno herança de vó, sem batom...Brincos em forma de meia lua, de prata, bijoux peruana, eu acho.
Impressão de ser um pouco sozinha, tinha um ar depressivo, porém, jovial. Se encantava com algumas frases, ria muito, alto, estridente, sorriso bonito. Passada a fase de risos, voltava o ar down. Era estranho, porém, provocador. Instigante. Diferente de outras, claro, mas com um ar parecido com as mulheres que me atrai.
As frágeis. Ou que aparentam ser frágeis. Ou com alguma fragilidade. Ou que não seja frágil, mas deixa ser frágil. Ou não frágil e que não tenha fragilidade, mas necessita de uma única coisa. Proteção.

- E aí, trouxe uns discos pra gente ouvir. Posso?
Peço pra olhar. Chico buarque, argh...Caetano, argh...Massive attack, é esse.
- Esse mezzanine é ótimo.
Diz.
- É eu também tenho, acho maravilhoso. Colocaí. Mas esses outros, nem fudeno...
E rimos.
Pergunto se está afim de comer algo.
- Tem o que pra comer?
- Faço um espaguete, tem pão, queijo, refri, vinho, chocolate...
- Bom, faz o espaguete que eu acompanho.
- Ok...

Bom, panela no fogo, agua, uma pitada de sal e só. Espero ferver. Jogo a massa na panela. Espero ficar ao dente. Ela na sala. Dançando de braços abertos, ao som de "Angel". E parecia mesmo. Movimentos leves. Parecendo uma odalisca. Meio maluca, mas muito sensual. Braços jogados ao vento. Sempre. Linda...
Coloco a massa no escorredor, jogo um pouco de agua fria. Jogo uns tomates na panela, uma pitada minúscula de sal e deixo ferver. Tiro as peles. Um pouco d´agua. Manjericão. Mais fervura. Pronto.

- Aê, tá pronto.
Ela pára seu solo. Vem até mim. Aprecia o aroma. Pega a colher, coloca um pouco do molho na palma da mão. Experimenta. Arregala o olho com expressão de estar muito bom. Pega um prato. Joga um pouco de massa, molho, parmesão e se senta na mesa da cozinha. Faço o mesmo. De frente a ela.
Comia com gosto. Parecia nunca ter comido um espaguete na vida. Não sei, cada garfada era seguida de um elogio.

- Nossa, pra mim isso é quase novidade. Em casa não como molho de tomate assim. O que você fez?
- Só não usei nada de caixinha.
E ela riu.
- Pois é, coisas práticas da vida. Mas nada como uma boa comida.

E mais garfadas, mais elogios. De vez em quando falava alguma coisa sobre a música. Mas voltava sempre no mesmo ritual. Garfadas e elogios. Elogios e garfadas. Até finalizar o prato e colocar a mão sobre o estômago.

- Nossa, valeu!
Falou, soltando um suspiro no fim.
- Gostou?
- Muito. Está de parabéns, pronto pra casar.
Pisca.
- Não, isso não serve pra mim.
Respondo de pronto.
- Não, nem pra mim, mas com um marido desses, eu me casaria. Cozinha muito bem, sempre tem motivos pra me consquistar e não reclama das minhas maluquices.
- Reclamar? Suas maluquices são parecidas com as minhas talvez, menos ouvir mpb...
Ela ri.
- É, nem tudo é perfeito.
- Nem tudo, perfeição demais cansa.
- Pode crer.

E ficamos ali, conversando sobre perspectivas, estudos, trabalhos, culturas, sons, barulhos, dia a dia, enfim, a vida em si...Mas sempre com seu ar depressivo, melâncólico, me dá colo, porém, arisca e esperta...Se deu conta que passara das 18:45, pegou os cds do Caetano e Chico, colocou na bolsa. Amparou no ombro.

- Está na hora de ir. Tenho facul ainda hoje...
- Tudo bem, te acompanho até o ponto...
- Tá certo...Vamos então?
- Vamo...

Seguimos pela rua, mãos dadas, sem trocar muitas palavras. Timidez? Talvez. Costume? Talvez. Namoro? Muito cedo. Chegamos. Paramos ali. Reparo que não havia ninguém conhecido. Nem mesmo a senhora de todos os dias. Mesmo 12 horas depois. Esperamos um pouco. Veio o maldito.
Trocamos um beijo. Me pediu pra ligar mais tarde.
- Por volta das 23:30, ok?
Acenei com a cabeça. Dei um tchauzinho acanhado e voltei. Alguns passos. Muitos pensamentos. Muitos sorrisos bobos. Entrei.

"You are my angel"...Tocava de novo. Sentei ali. Me servi do vinho que restara. Bebendo. Pensando. Sorrindo. Não conseguindo esquecer aquele par de olhos gigantes. Negros. Profundos. Pintados. Doces. Frágeis.
E por ali fico. Ligo a tv. Vejo, mas ainda prefiro o som da música. E viajo. Lembrando da dança e dos olhos. Levanto. Mais uma mijada demorada. Volto. Sento. Cochilo.
Acordo assustado. Dou uma olhada no relógio. 23:40. Pego o telefone. Ligo.

- Alô?
- Alô, Por favor a Carla?
- É ela.
- Oi, chegou bem?
- Sim, e você, ficou bem?
- Sim, claro.
- Olha, você esqueceu seu cd aqui.
- De propósito, pra você lembrar de mim, um dia eu pego...
- Pode ser amanhã?
- A mesma meia hora de hoje?
- Se preferir...
- Então combinado, só não vai estranhar, pois, sempre atraso...
- Tudo bem, vale a visita e a compania...
- Combinado...
- Ok, beijo.
- Beijo.

Desligo. Vou a sala. Desligo o som. Aumento a tv. Olho um pouco. Lembro dos olhos. Da dança. De virar pra esquerda. Sonolento. E dormir.
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Crônicas [Sep. 12th, 2006|07:07 pm]
" Vambora...Vambora...Tá na hora...vambora...vambora"
E assim se inicia a semana pra mim. Rádio relógio toca. Incessantemente, exatamente às 6:02. Demoro até as 6:10 pra realmente abrir o olho, mirá-lo com raiva e sentar na cama.
Eterno ritual de todas manhãs de segunda. Sentar na cama. Procurar o cigarro. Isqueiro. Acender. Engolir o primeiro trago. Longo. Passar a mão no cabelo. Nos olhos.
Levantar. Ir ao banheiro mijar. Jogar a bituca no vaso. Dar descarga. Entrar no box. Ligar o chuveiro. Algumas ensaboadas. Agua novamente. Enxugar. Pronto.
Vestir o mesmo jeans. Meias 3/4. A camisa da empresa menos amassada. Ajeitar a barba. Arrumada no cabelo. Desodorante.Rua.

Essa noite incrivelmente não me lembro o que sonhei. Mas essa noite foi de sono pesado. Não me lembro se me despedi direito da garota, se ao menos disse tchau. Só me lembro de recebr o beijo e a luz se apagando. Ou foi eu?
Bom, não sei na verdade, mas caminhando e pensando. Rindo, sempre. Começo a me lembrar de algumas coisas. Foi bom, muito bom por sinal. Talvez seja isso que mantém esse sorriso bobo no rosto. Talvez não. Pensar e rir dos pensamentos sempre acontece mesmo.
Chego ao ponto de ônibus, quase o mesmo pessoal de sempre. Uma senhora com um lenço amarrado na cabeça, aparentando seus 60 anos, vestido de poliéster, rosto enrugado e sofrido.Um estudante, roupa de colégio, cabelo lisinho, com franja pro lado, earphones, imitando guitarra com o ar.
Duas garotas, por volta de 20 anos, pasta na mão, jeans, salto alto. Bonitas até, mas maquiagem um pouco carregada. E um cara, aproximadamente a minha idade, mas nem reparo. Só reconheço que é novo por ali.

- Bom dia!
Falo a todos do ponto.

A senhora e as garotas me acenam com a cabeça, o estudante cada vez mais entretido com seu solo e o cara é o único que responde em voz.

- Bom dia. Você sabe algum ônibus que segue até a Praça da Bandeira?
Me pergunta com uma voz meio trêmula.
- Bom, aqui vc pode pegar o 5570 ou esperar o próprio Bandeira.
- Obrigado. Sou novo por aqui e não queria me atrasar ao trabalho.
- Ok.

E fico por ali, aguardando o de sempre. Belém. Rumo a chibata. Quando vem. Espero a senhora subir com dificuldade. Ajudo com a sacola. Ela apenas me agradece com a mesma delicadeza de sempre de pegar na minha mão. Coisa de vó, eu acho.
Vou até a roleta e como de costume, cumprimento o cobrador.

- Bom dia, como cê tá?
- E aí, certo? Atrasado, mas agora só passar reto uns 3 pontos que chegamos no horário.
- Tá certo.

Dou uma risadinha pra não ficar sem graça. Fico pensando se fosse comigo, eu não estaria achando graça, afinal, seriam 40 minutos de espera pelo próximo. Desconto pelo atraso. comida de rabo da chefe. E não quero começar meu dia pensando nisso.
Fico ali de pé, perto de um bigodudo que há muito já havia vencido o cheiro do suvaco, aceno a cabeça, mas ele nem aí, segura firme no ferro, braço estendido e cara de poucos amigos. Mas com aquele cheiro quem será amigo dele?. E rio. Ele não entende, pode me achar aviadado. Mas tá foda.
28 minutos. É o tempo que me separa desse cheiro maldito à liberdade do dióxido de carbono lá fora. E aguento. Firme. Pensando. Fechando os olhos de vez em quando. De repente, ouço.

- O senhor tá me achando com cara de Papai noel, pra carregar seu saco no ombro?
Uma moreninha, nordestina, do tipo bem furiosa reclamando do bigode com carniça no suvaco.
- Não minha senhora, o ônibus está muito cheio, e esse vai e vem...
Diz ele constrangido.
- Olha, se encostar de novo esse saco em mim, juro que furo com o pente.

Ele nem responde e sai. Eu o acompanho, escutando ainda alguns comentários sobre pente e tal. Descerei no próximo ponto. Dou sinal. Alguns metros. Porta se abre. Enfim, redenção.
Acendo outro cigarro. Outra tragada longa. Ando devagar, ainda faltam 15 minutos. Tragada, passos, tragada, passos. Chego. Bom dia ao porteiro. Chamo elevador. Entro. 7º Andar. 2 minutos. Desço.
Bom dia aos de sempre. Dois que conheço desde que comecei a trabalhar, uma menina que sempre me traz café quando não está ocupada, a chefe e só. O resto, eu não faço questão. REsposta de pronto de todos.

- Bom dia.

E mais nada. Sigo pra minha baia. Ligo o computador. Fone na orelha. Microfone um pouco abaixo da boca. Meu humor muda. Irritado, ranzinza, chato, agressivo...Ao menos nas próximas 8 horas.
Primeira ligação do dia.

- Companhia de telefonia paulista, bom dia, no que posso ajudar?
Com voz grave e seca. Fugiu a simpatia e os pensamentos não me traz mais sorrisos.
- É que meu telefone não estava funcionando, agora voltou, mas antes não estava. Como isso pode acontecer, hein moço?
Uma mulher, com voz doce, mas eu não estou com saco.
- Não sei senhora, pelo que consta no meu sistema, estava e está funcionando muito bem.
- Agora, mas há 3 horas, não estava nem dando linha.
- Bom, vou dar uma olhada no sistema, a senhora aguarda uns minutinhos?
- Sim.
Levanto. Vou pegar um café. Passo pelo banheiro, dou a segunda mijada do dia. Lavo as mãos. Volto.

- Senhora?
- Sim.
- Nosso sistema não acusa nenhum problema.
- Como não? Não estava funcionando. Você está me chamando de mentirosa?
Meu saco já estourando, esperando a próxima pra mandar tudo pro alto.
- Não senhora, mentirosa não, só estou relatando o que nosso sistema indica.
- Vocês são todos uns incompetentes!!!
Aí foi a gota d´água.
- Senhora, tem marido?
- Sim.
- Aproveita que é casada, vai trepar, dar o rabo pra ele, chupar, enfim, vá foder com ele, não comigo.
E fiz silêncio, mas com uma vontade de gargalhar, mas não podia.
- Seu mal educado. Filho da puta. Me chama seu chefe. Eu quero falar com a chefia. Onde já se viu? Devo ter idade pra ser sua mãe, seu filho da puta!!!
- Então senhora, faça como ela, fode com o marido, não encha e passar bem.

Desligo rindo. Jogo a cabeça pra trás. Alongo os braços, como se estivesse espreguiçando. Ouço um burburinho de que ela ligou novamente, mas está com outra pessoa tentando explicar porque ninguém dali falaria aquilo para ela.
E fico na minha. Afinal, ninguém sabe quem foi, se souber, foda-se. Hoje não era nem pra estar aqui. Ramal toca novamente.

- Companhia de telefonia paulista, bom dia, no que posso ajudar?

- Bom dia. Estou com um problema. Minha conta veio muito alta, com interurbanos para cidades que eu nem sabia que existia.
A voz de um homem. Rouca. Séria. Sotaque espanhol. Ou de qualquer lingua que valha.

- Senhor, por esse número que ligou, consta sim, muitas ligações interurbanas. O senhor admite não ter feito?
- Sim, não conheço essas cidades, nem meus filhos.
- Já conversou com sua família sobre?
- Sim e tenho que acreditar neles e não nessa conta absurda!
- Não tenho muito o que fazer. O senhor pode pagar essa conta e na outra enviaremos como bônus.
Eu sei, é muito pra inteligência de um ser humano, mas é procedimento e regulamento da empresa. Se fosse comigo...

- O quê? Bônus? Como assim?
- Simples, o senhor vai ao banco, paga a conta e mês que vem reavemos isso como bônus em sua conta.
- Você está maluco?? Eu pagar por algo que não usei e depois ainda ter de reaver isso como prêmio?? Vai tomar no cú!!!
- Senhor, é procedimento da empresa...
- Foda - se, mas isso eu não pago!!!
E começou a sessão de xingamentos de todos os tipos, até a hora de começar a ser pessoal...
- Você é um filho da puta, eu trabalho muito pra sustentar 4, você não sabe o que é acordar cedo e dar duro...
- Senhor, minha mãe não é puta, mas dar no duro e sustentar de 4? Repete a frase...

E dou uma enorme risada. Daquelas que até a chefe desconfia. E vem falar comigo.
Transfiro a ligação, falando que ele falaria com a superintendência. E vou pra sala da chefe.
Profissional em cima da mesa, o velho papo de corte de pessoal, produtividade, atitudes erradas, blá blá blá...Pego a carteira, aperto de mão de esmagar os dedos, olhar fixo na cara da piranha. Tudo bem, não queria mais estar ali,
porém, nunca é bom perder emprego, por pior que aparenta ser.
Mando um tchau de longe para os de sempre. Sigo o corredor. Elevador no 7º. Entro. 2 minutos. Térreo. Livre. Cadê o bar? Penso e logo mais risos.
Ando. Devagar, agora não tem mais pressa. Entro no primeiro bar que encontro. Olho no relógio, já passa das 14. Peço a mesma gelada de sempre. E veio, exatamente como pensei, gelada, amarela e espumante.
Encho o copo. Primeiro gole sempre até acabar. Segundo aos poucos. Sem pressa. Um legião de desempregados estão pelo balcão, alguns jogando sinuca, outros falando do jogo de ontem, Nada demais, apenas mais um bar. E eu ali, sentado,
observando, bebendo...Termino minha cerveja, deixo dinheiro em cima do balcão, rumo ao ponto de ônibus. Sem pressa. Vendo o que acontece na rua nos dias em que estou enclausurado. Muitos passantes. Muitas bundas interessantes. Sainhas.
Barriguinhas. Começo a pensar que o dia é mais atraente que a noite. Mais alguns passos e paro no ponto de sempre. Vazio. Só o vento e eu. passa um, dois, três ônibus...Decido não pegar apenas o próximo. Ainda é cedo. Enfim veio o busão.
Subo.

- Boa tarde cobrador.
Sem resposta.

Sento. Olho pela janela, assistindo casas e prédios passando. Muita sujeira. Pixação. Me perco nos pensamentos. Só um aliás, me atrai. Apenas um.

- Devo ligar pra menina.
E sigo pensando dentro do coletivo. Mais alguns quilometros rodados e chego. Desço. Alguns metros andando. Em casa. Procuro o papel, acho em cima da cama, todo amarrotado.
Pego o tel. Tento uma, duas, três...Sempre ocupado.

Deito na cama, olho o relógio de parede, 20 hs. Levanto, passo uma agua num copo, sirvo de cachaça. Ligo o som e a tv. Escolho um cd, fiona apple, chatinho, mas tem uma musica boa. Get gone. Coloco no repeat. Goles na pinga. Olhada na tv.
Som um pouco alto. Tento acompanhar o refrão cantando na altura do som. Dou risada do meu inglês. Sento. Som, cachaça e pensamento longe...
Cause what i do was not good for you...And you did not good for me...
É o q eu lembro da letra, ou algo parecido.

Depois de algumas vezes tocando e meio bêbado, sei que virei para a esquerda. Sonolento. Dormi.


Continua...
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Crônicas [Sep. 11th, 2006|05:25 pm]
Meio da noite. Acho que 4 da matina. Acordo abruptamente, corpo todo molhado de suor.

- Sonho do caralho.
Falo alto.

Nem sempre é bom conviver com imagens de ex mulher, ainda mais em sonho. Tipico pesadelo. Divórcio. Filhos. Contas. Lixo pra fora de casa.
Mas acabo levantando, passando um sabão em um copo sujo de vodka, enchendo de água, tomando sempre de um gole apenas. Encho de novo, goles menores.
Deito e durmo novamente.
Cerca de 13 horas, levanto de vez. Domingo é bom por isso, sempre acordamos "um pouco" mais tarde. Passo uma água no rosto, coloco água pra esquentar pra preparar um café,
preparo o filtro de pano com duas colheradas de pó, e espero... Água fervendo, jogo de uma vez em cima do pó, pronto. Misturo um pouco com açucar, e tomo devagar. Penso e rio.

- Café fervendo não dá pra beber de um gole só.
E dou outra risada.

Visto a mesma camisa vermelha e uma bermuda velha, sento em frente a tv e ligo. Nada de interessante. Um gong show idiota num canal. A palavra de Deus noutro. Análises futebolísticas nesse. Paro e fico olhando.
Um senhor no alto de seus 70 anos, falando poéticamente de times de futebol. Óculos de lenter grossas. Boca mole e murcha. Mas parece encantar a apresentadora deliciosa do lado. Com cara de deleite nas palavras do velhaco.
Aliás, ser velho deve ser isso. Fazer poesias sobre tudo. As jovens devem gostar. Velho, romântico, inspirado, meio senil. Mas e a safadeza? O pau duro? Isso não é nada poético. Apesar que rola dura, tem o remédio azul. E rio novamente.
E mais algumas poesias sobre o ponta de lança tal, sobre o goleiro que falhou, o técnico que ganha todas. Viadagem septagenária. E mais risadas. Devo ser um demente. Para todas ocasiões, eu vivo rindo sozinho. Todos devem me achar um louco.
Mas sou apenas solitário, individualista de minhas piadas sem graças a mim mesmo. E rio novamente. Bobo alegre. Mais risos.
Desligo a tv, coloco um cd pra ouvir. Portishead. Vou direto na faixa "All mine". Boa musica, bom clima. Sento, abro uma garrafa de cachaça mineira, sirvo uns dedinhos e fico degustando, ouvindo o som, sem nenhum pensamento na cabeça. Ou algum, apenas não lembro.
Toca a campainha. Olho o relógio de parede. 15:40.

- Quem será a essa hora??
Falo me dirigindo a porta.

Dou uma olhada no olho mágico, mas não consigo identificar.

- Quem é?
- Sou eu, caralho.

Abro a porta e vejo, um amigo, acompanhado de mais um cara e 3 garotas.

- Aí, falei pra você que iríamos vir, lembrou?
- Ahhh, não estou lembrado, mas entre aí.
- Beleza. Esse é o Miguel. Carla. Bia. Ana.
O cara, descabelado, típico estudante neo hippie da usp. As três, duas magras, gostosinhas. E claro, ao meu gosto, uma gorducha, deliciosa. Ao passar por mim dou uma olhadinha em suas bundas.
Gostei. Mais a de vestido florido. Carla, se não me engano. Cheinha, maçã do rosto avermelhado. Boca bem feita, vermelha. Bunda firme, mas que acompanaha o vai e vem do vestido. Botero iria gozar, só de ver.
E mais risos inconscientes.

- E aí? Entrem.
E trouxeram algo parecido com um almoço. Um frango assado de padaria. Uma farofa amarela, meio viscosa. Duas garrafas de vinho barato. Pão.

- Então, o que anda fazendo da vida?
Perguntou.

- Bom, trabalhando muito. Me divertindo pouco. Sabe como é? Dinheiro...

- Ahhh e desde quando se precisa de dinheiro para garantir diversão. Ontem mesmo, com deizão, saí, conheci essas minas e tamo aí, convidei pra vir pra cá. Aceitaram. Só não sei se dão fácil.
Dou um risadinha.

- É cara, às vezes é bom. Mas não estou me sentindo muito bem. Separação fode com a gente. Quando menos quer, aparece algo na cabeça e não sai.
Essa noite já tive um puta sonho estranho. Estava casado novamente. Ouvindo reclamação por causa dos filhos. Do lixo que não levei pra fora. O mais engraçado, nada de filhos e o lixo eu nunca levei pra fora mesmo.
Alguns risos.

- Mas aí, esquece disso, trouxe uma pra você, do jeito que gosta. Não tem do que reclamar.

- Claro, percebi. Se fosse outra magrela, não ia dar. Já sabe. É amarrar um fio na cintura e na hora da foda brincar de bilboquê.
E demos uma sonora gargalhada.

- Essa foi foda!!! Vamos lá com o pessoal...Bilboquê...hahahahahahhahaha

Saímos da cozinha, rindo e nos dirigimos à sala. Levando o frango, pão, vinho e a farofa gosmenta.
Cada um se serve com a mão mesmo, sem frescuras. Ainda bem, porque não tenho motivos pra comprar guardanapo, qualquer pano serve pra tirar gordura. O resto o sabonete se encarrega.
No sofá de 3 lugares as garotas. No outro de 2, o tal de Miguel, meu amigo e eu puxei o banco de madeira. Observando o papo do Miguel com as garotas. E lá se vão as esperanças logo na primeira frase que escuto.

- Então, tenho relido muito Schopenhauer. A Metafísica do amor. Nossa, muito louco.
Meu saco. Será que não fujo de gente assim? ou apenas atraio esses tipos. Penso.
- Mas o meu forte mesmo é literatura sobre política. Sabe? Marx, Engels, Trotsky, Proudhon...

E as meninas quietas, fazendo cara de interessante. Até que uma fala...
- Nossa, mas o capitalismo é coisa de satã. Poderíamos viver apenas do escambo. Realmente.

E todos riem alto. Dou um sorriso sacana, apenas fitando suas pernas descobertas pelo vestido florido.
Continua o papo sobre libertarismo, anarquia, escritores, pensadores, mordidas no frango, gole no vinho, nacos de pão e a farofa intacta. Acho que até eles notaram o aspecto daquilo. E ficou ali.
De repente o imbecil chamado Miguel solta:

- Como disse Proudhon: " A propriedade é um roubo.""
Aí eu não me contive.

- A propriedade é roubo?

- Sim. Respondeu de pronto.

- Você já fodeu uma mulher no cú?
Essa hora vi que uma das garotas quase engasgou e arregalou os olhos. Outra riu. Meu amigo deu um sorriso cínico. A outra apenas silenciou.

- Mas isso não é a questão sendo abrangida.
Disse, com ar de aristocrata do saber.

- Como não? Você citou Proudhon. Você mencionou e bradou. Propriedade é um roubo.

- Sim, mas não vem ao caso se já fodi alguém pelo cu ou apenas a buceta.

- Se todo corpo é um templo, e cada individuo é proprietário de tal "templo". Então dominação ou submissão desse templo, também deve ser encarada como roubo.
E calou-se.

- Mas na minha humilde opinião, o que interessa é o sexo. Foder e nada mais. Alguém mais concorda?
E as meninas riram. Meu amigo deu outra forte gargalhada. Miguel com cara de bunda apenas consentiu.

- Então meninas, eu acho esse papo um saco. Prefiro coisas sadias e práticas. Como o sexo. Discutir ideologias e paradigmas de felicidade é masturbação mental. E masturbação boa e prazerosa, apenas dos genitais.
E dou uma piscadinha. Uma mais animadinha, não sei se pelo vinho, diz:

- Sim, e muito dos prazeres e orgasmos que tenho são por masturbação. Nenhum homem sabe me tocar ou me faz sentir ao menos satisfeita, como só eu sei.
Risos pela sala, um burburinho.

- Claro, auto conhecimento.
Diz uma delas.

- Não quero comparar as atitudes de outras pessoas, sendo que só você sabe onde fazer, tocar, intensidade...
E volta a animadinha.

- Não é isso. Mas tem cara que já chega de pau duro, tira a roupa, enfia, 2 minutos de foda, goza e deita pro lado, de repente, ronca.
E mais gargalhadas. Vejo Miguel, cada vez mais desconfortável.

- Ahhh sim amiga. Esse tipo é o que tenho em casa, não é Miguel.
Pronto. Era o que faltava pra completar o domingo do cara. A mina dele falando que ele se dedica mais aos livros do que sexo.

- Não querida, não é.
Responde ele seco.
Sinto uma certa aura pesada no ar entre os dois amantes. Também vejo que meu amigo troca olhares com a magrela punheteira. Me sobra a gorduchinha. Óbvio.
Tento voltar o assunto.

- E você? Nada diz?
Ela avermelhada, com um sorriso sacana, olhar de colegial, dá um trago no cigarro...respira e solta:

- O que gostaria de saber, meu bom?
Retribuo o sorriso.

- Sobre o que estamos falando...

- Bom, só tenho conhecido canalha. Do tipo que leva horas me cantando e minutos de alegrias. Depois some, nunca mais liga, nem nunca mais aparece...
E volta com o copo na boca.

- Se é só pra comer, não precisa me prometer casamento, fala que me acha gostosa. Tá afim de me foder e pronto.
Vinho barato é bom por isso, deixa a lingua solta e os movimentos livres...

- Bom, te acho muito gostosa.
Digo depressa.

- Sabia. Você me parece ser inteligente e sensível.
Pisca, sorri e deixa o copo na mesinha de centro.

Foge o assunto, falamos mais algumas besteiras coletivas e rimos muito. Por volta de 20hs meu amigo decide ir. Miguel ainda puto com o comentário da namorada devia estar pensando que demorou para o amigo decidir.
Nos despedimos, apertos de mãos, beijinhos, abraços. Digo a Miguel para relaxar, afinal, ler é bom, mas buceta ainda é melhor. Me dá um sorrisinho amarelo pega na mão da mulher e sai.
Meu amigo fala mais algumas coisas, engata na mina dele e sai logo atrás. A gorduchinha vem e me dá um longo abraço, um beijo demorado no rosto...Me dá as costas, mas seguro seu braço.

- Você não precisa se preocupar em ir agora.

- Bom, se você contar quem tenho mãe e pai para dar satisfação, entenderia.
E ri sacanamente.

A puxo de repente, pego forte na cintura com um dos braços, com a outra mão afasto os poucos cabelos que caíram no rosto. chego bem perto de sua boca.

- Te darei 3 bons motivos para não ir agora.
E dou um beijo longo, molhado, lingua pra lá e pra cá...

- Foi apenas o primeiro motivo...

Ela mesma fecha a porta empurrando com os pés. Olha para a minha boca e suspira.

- Hummm...o primeiro foi ótimo, agora o segundo e o terceiro.

Volto a beijá-la, um pouco mais longo. Escorrego minha boca sobre sua bochecha, deslizando até encontrar seu pescoço. Sigo mordendo, lambendo, chupando de leve. Até escutar mais suspiros e gemidos. Paro.

- O segundo motivo.
Ela não me responde. Apenas arruma o cabelo atrás da orelha. Se recompõe.

- Terceiro e último.

Beijo demorado novamente, agora com as mãos liberando as alças do vestido de seus ombros, deixando cair suavemente por seu corpo. E ali está um belo par de seios. Médios. Um pouco rijos. Aréola rosada. Pronta pra receber minha boca.
Começo lamber suavemente, até chegar no biquinho, já duro...E chupo, lambo, mordisco...Respiração ofegante, suspiros...Minhas mãos tocam sua bunda volumosa...Gostosa...Agora apenas com sua calcinha de algodão. Típica colegial.
Coloco minha mão por dentro e começo a massagear sua xana, derretendo de tanto tesão...

- Ahhhhh...

Apenas esse o som quando toquei seu grelo e o massageei. Movimentos circulares, ora lento, ora rápido, ora com pressão, ora leve...
Parei.

- 3 bons motivos não?

Nada respondeu. Apenas se ofereceu novamente. Já pegando no meu pau sobre a calça. Se abaixou. Abriu o ziper. Colocou pra fora e caiu de boca...Gostosa...bem ritmada...boca molhada...Levanto, dou um beijo rápido e a levo pro quarto.
Mas uma sessão de beijos, boquete se trasnformando em 69, procuro uma camisinha e a fodo com gosto...Primeira...Segunda...Terceira...Nos demos conta do horário, já passava das 23. Ela se levanta, me pergunta onde tem uma toalha. Indico apenas, estou meio sem palavras.
Ela pega e sai para o banho. Volta em meia hora, enrolada na toalha, cabelo um pouco molhado e sorri. Senta ao meu lado, tira o cigarro da minha mão, dá uma tragada, e me devolve. Sorri novamente.

- Muito bom seus 3 motivos. Mas agora realmente tenho que ir.
Diz, sem eu nem falar nada.

Procura sua roupa, veste, me pede um papel e uma caneta. Indico apenas, estou ainda sem palavras.

- Esse aqui é meu telefone. Espero que o cavalheirismo não tenha morrido aí dentro.

Apenas balanço a cabeça afirmando que sim. Ela vem, me dá outro beijo. Outro sorriso. E sai.

Olho o papel. Sonolento. Viro pra esquerda. Durmo.




Continua...
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Crônicas [Sep. 11th, 2006|12:55 am]
E o dia começou. Acordo, gosto estranho na boca, como se estivesse beijado ou lambido alguns ratos. Asqueroso.
Levanto, meio cambaleante, sonolento, devagar...Sinto o pé dormente ainda, dou umas batidas no chão pra acordá-lo,
mas ainda assim o sinto formigando, inerte aos movimentos que insisto que faça. E nada. Tento uns passos e quase caio.

- " Filha da puta..."
Esbravejo, mas logo sinto ficar um pouco mais quente e esperto, agora sim, de volta à vida.

Visto minha camisa vermelha, o jeans de sempre, meias 3/4, o velho tênis. Dou uma mexida na barba, uma arrumada no cabelo.
Abro a carteira, coisa pouca. Passes de ônibus, duas ou três notas pra bebida, identidade e só. Aliás, nem preciso de muito mesmo, tá bom demais.

- " Porra, acabou a bateria do relógio. Talvez me atrase. Ou não."
Penso em voz alta.

Mas me lembro que não vou a algum compromisso braçal. Apenas sair, ver o mundo, desopilar o fígado. E rir. Rir muito.
De mim, do mundo, da merda de cachorro deixada na porta de casa.

- " Filho da puta !!!"
De novo, esbravejo, mas de nada adianta. Como os idiotas acreditam, é sorte pisar em merda. Não quando está a dois passos da porta de sua casa.

Vagando, paro no ponto de ônibus. O primeiro que passar serve, como sempre, sem rumo ou destino. Apenas ir.
Caetaneando a vida. Coisa de viado, eu sei, mas não tenho lenço, nunca, mas documento sim. Nunca se sabe o grau alcoólico da vítima.
Penso, dou uma risadinha, costume solitário e imbecil. Todos devem me achar louco. Gosto disso, da diversão que a imaginação nos dá. E rir.
Rir das próprias besteiras que penso sozinho, falo sozinho, imagino sozinho...
Boa noite ao cobrador, desço do ônibus.
Agora sim, a rua só minha, e de alguns que vão e voltam sem destino como eu. Sozinhos. Devem rir dos pensamentos, imaginações, falas...

Entro no primeiro bar sujo que vejo, peço a mesma de sempre.

" Tá gelada hj? Vê direito esse negócio, hein, cú de burro?, Já sabe vem quente, volta fervendo..."
O rapaz ri e me traz aquela do fundo da geladeira, gelada...Sobe no copo amarela com espuma...
A primeira bebo com gosto. Viro o copo e só tiro da boca qdo acaba. Encho novamente, mas esse eu deixo, dando alguns goles esporádicos.

Nesse meio tempo, fito uma garota. E outra. E mais outra. Até encontrar aquilo que estou esperando. E não encontro.
Devo estar atrasado, dou umas batidinhas no relógio e nada. Essa porra não funciona mesmo. Outro gole grande e volto a encher o copo.
Ao colocar a garrafa no balcão, sinto alguém cutucar as minhas costas e com uma doce voz falar:
- "Taí faz tempo? Porra, andar tudo isso e chegar aqui e nem ter um copo. Serve um trago aí, que vou ao banheiro e já venho."
Saiu tão rápida quanto a sua chegada. Pedi outro copo. Enchi e devolvi ao balcão. À espera.
E sua volta é triunfante. Sorriso bem posto no rosto, jogando os cabelos, chega bem perto e me beija.
Falamos sobre algumas coisas bobas, deixo o dinheiro no balcão e saímos.

Andamos vagarosamente, sem pressa, conversando sobre os assuntos mais idiotas do mundo. Às vezes até sobre desenhos animados, alguns escritores que gostamos,
outros que detesto, mas a escuto, afinal não gosto de papo pseudo, citações, decoreba de alguns livros, apenas pra dar o ar de
inteligência ou conhecimento enlatado...Falo pouco, apenas escuto...Não por timidez, nada disso, apenas não tenho paciência para conversas medíocres ou que tentem
passar algum tipo de conhecimento inteligente demais. Por isso só escuto. Exercício de sedução masculina? - Penso - Talvez.
Avisto alguns conhecidos nossos em um bar e decidimos sentar. Não sei, mas mulher tem o poder de atrair qualquer idiota, realmente.
E sobre o assunto que não me interessei, sempre tem um esperto com as maiores idéias e soluções para tudo. Agora não sou mais o principal, apenas o coadjuvante.
Engraçado, mas é da essência feminina. Qualquer novidade, mesmo a mais imbecil, as atraem. Tudo bem, não tenho muitas qualidades para ser príncipe.

A maneira como fingia não me conhecer, mexia e remexia meus instintos, o macho...A cada corte, cada olhada mal dada que dávamos, desaprovando um pouco as atitudes,
os trejeitos, as risadas, as jogadas de cabelo. Aquilo me deixava fervendo. A desejava cada hora mais. Acho que a solidão faz isso com as pessoas,
mendigam por o mínimo de atenção, se alguém a rouba, ficamos fulos e ciumentos. Merda.

Por mais algumas horas ficou aquele jogo de sedução à francesa, surdina, sorrateira...Decidimos ir, levantamos, alguns apertos de mãos, abraços, um pouco afoitos ao meu ver,
beijinhos e meu saco estourando. Solto um sorriso. Essas situações nos pedem um sorriso. Mesmo cínico. Abixo a cabeça quando ouço.

- Vamos?

Abano a cabeça positivamente e saímos. Alguns passos e pergunto.

- O que temos um do outro?

Ela estranha.

- Nada. Apenas nos vimos duas vezes.
Com um riso característico de quem sabe que está desafiando o macho.

Seguimos o caminho, sem trocar uma palavra. Caminhando. Devagar. Caminhamos. Sem sentido e sem palavras. Muito menos palavras.
Mas sei o que ela espera. Domínio. Toma-la nos meus braços agora seria muito pueril. Não posso me render a isso. Não teria motivos para tal.
Agir por tesão, desafio, ira, descontrole...Não, começo a pensar sobre a merda do cachorro. E rio.

- Do que está rindo? - Pergunta.
- Situações ridículas do dia a dia. Pisei na merda do cachorro ao sair de casa, lembrei e ri.
Ela olha descrente.
- Tsc, tsc, tsc. Homens.

Se despede, beijo no rosto, abraço, boa noite e some.

Chego no ponto de ônibus. Começo refletir sobre muitas coisas...Sem sentido, sem discernimento. Deve ser a bebida. Mas penso em algo que me chama atenção...

- Buceta é sempre bom, pena que a mulher vem junto...E mais algumas risadas solitárias.

Pego o primeiro que passa. Subo no ônibus.

- Boa noite cobrador.

Alguns quilometros rodados. Desço. Ando até em casa. Chego, tiro os sapatos. Deito. E o telefone toca.

- Alô?
- É, vc realmente não vale a pena, não me comeu hoje, não come mais.
Dou risada sozinho da frase e apenas respondo.

- Buceta é bom, pena que mulher vem junto.
Ouço alguns xingamentos, o telefone desligado agressivamente...Dou mais algumas risadas, afinal, não é todo dia q perco alguém por ser idiota.

E novamente, deito. Sonolento. Viro pra esquerda. Durmo.






Continua...
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